30 de outubro de 2012

O silêncio feminista sobre o estupro da índia Kaiowá e Guarani

      
      Vou começar com uma frase batida do Martin Luther King, mas ainda necessária: "O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons."
     Semana passada, Maria*, uma índia de 22 anos foi sequestrada, estuprada e abandona na beira de uma estrada da cidade de Iguatemi (Mato Grosso do Sul), após sair da sua aldeia para ir receber o Bolsa Família. 
        Amanhã completa 8 oito dias do ocorrido e 8 dias de silêncio feminista nas redes sociais. Somos conhecidas por sermos aguerridas e barulhentas, por vezes obsessivas diante de casos que nos revoltam. Quem não lembra da Monique do BBB, em menos de 24 horas todas se mobilizaram contra a situação envolvendo a participante do Reality Show que foi vítima de abuso sexual. Embora ela mesma não tenha se defendido, não tenha confrontado seus agressores (o cara que aproveitou sua embriaguez para molestá-la e emissora que permitiu o ato violento para obter alguns pontos no IBOPE) nós feministas a defendemos. Não tenho dúvida de que fizemos a coisa certa. Mesmo que uma mulher não reconheça que é vítima de violência e opressão, estamos aí para ser sentinela e bradar aos ouvidos insensíveis  desta sociedade machista que NÃO SOMOS COISAS, NÃO SOMOS OBJETOS. Nenhuma de nós, sob nenhuma circunstância pode ser tratada como tal. Em suma, como diz o chavão, as feministas estão aí para defender a ideia radical de que mulher é gente. Para ser a voz aguda que confronta os valores e padrões  de comportamentos baseados no sexismo. 
        Infelizmente, para o caso de Maria as feministas parecem não ter nada a dizer. Talvez o feminismo que estamos construindo por meio das redes sociais, das "Marchas", dos grupos de gêneros, em fim, este “feminismo inovador", tão celebrado por seus métodos, não tenha nada a dizer às indígenas, às negras, às moradoras de rua, às dependentes químicas (alvos dos esquadrões da morte, que as estão eliminado dentro da lógica de limpeza social para que não procriem mais gente pobre).  Talvez tenhamos inovado no método, mas continuamos com deficiência de conteúdo e de diversidade.
      As protagonistas do ciberfeminismo (na sua maioria branca, universitária de classe média) reclamam do machismo, ficam revoltadas quando humilhadas por ulgum troll-testosterona  que as desqualifica no facebook. Se canga do machismo é  pesada pra você, se coloque na pele das índias, das negras e outras mulheres que vivenciam e conhecem a face letal do machismo e da intolerância.
        No Brasil, quando as pessoas querem se referir a sua "brasilidade" gorjeiam:  "minha vó era índia foi caçada a laço". Ou seja, a miscigenação racial brasileira, cantada em verso e prosa, não foi uma carnavália (festa da carne) entre iguais como denota nosso mito de origem, foi isso sim o sequestro, estupro e aviltamento dos corpos de índias e negras. Feminista da net, quer saber o quanto é duro ser mulher neste país?  Pense na situação da índia estuprada, espancada e descartada na beira da estrada, quando ia ao banco buscar os caraminguás que fazem nossa ilustre primeira-mulher-presidenta-da-república tão celebrada. Esta mulher sobre a qual nós  "feministas modernosas" estamos nos calando, cuja biografia  não é marcada por contribuições intelectuais ao discurso feminista, como a  da Simone Beauvoir, nem pelas controvérsias  em torno do neofeminismo da desinformada Sarah Winter (Femen Brazil); mas cuja trajetória de luta e violência diz muito sobre nossas origens e nossas ambições feministas. Maria é aquela "avó índia caçada a laço", estuprada e obrigada a parir herdeiros para perpetuar a linhagem do seu estuprador, coisa de quem muitos se orgulham.
       Maria é aquela abandonada à margem do caminho pelos estupradores e por nós. Feministas  tão aguerridas quando a violência envolve mulheres jovens, escolarizadas, urbanas, brancas e remediadas, mais silenciosas e indispostas a  vestir a pele da índia, a pele da negra, da analfabeta, da camponesa, isto é, daquelas que mais precisam do projeto de emancipação, dignidade, liberdade e igualdade que as feministas se propõe a construir. 
        Que Maria e as outras mulheres sofridas do Brasil nos perdoem por abstrair a existência delas do feminismo nosso de cada dia, por subtraí-la das nossas mentes, preocupações  e redes sociais (seletivamente) feministas. 

*Pseudônimo...





Abaixo alguns textos PAGÚça-sua-mente!
Publicados no 
União Campo Cidade e Floresta
O Blog da Preta

DIFERENTES FORMAS DE SER MULHER: DIANTE A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO FEMINISMO INDÍGENA?
Por: Aída Hernández Castillo Salgado

Há dez anos seria impensável falar da existência de um feminismo indígena no México, no entanto, a partir do levantamento zapatista iniciado em 1 º de janeiro de 1994, podemos ver surgir no âmbito nacional um movimento de mulheres indígenas que está lutando em diversas frentes. Por um lado, as mulheres indígenas organizadas uniram suas vozes ao movimento indígena nacional para denunciar a opressão econômica e o racismo que marca a inserção dos povos indígenas no projeto nacional.  Ao mesmo tempo estas mulheres lutam no interior de suas organizações e comunidades para mudar aqueles elementos da tradição que as excluem e as oprimem. As demandas destas mulheres e de suas estratégias de luta nos levam a considerar esta luta como o surgimento de um novo tipo de feminismo indígena, que mesmo coincidindo em alguns pontos com as demandas de setores do feminismo nacional, têm ao mesmo tempo diferenças substanciais.
O contexto econômico e cultural em que as mulheres indígenas foram construindo as suas identidades de gênero marca as formas especificas que tomam suas lutas, suas concepções sobre dignidade da mulher e suas formas de fazer alianças políticas. As estratégias de lutas destas mulheres estão determinadas pela sua identidade de etnia, de classe e de gênero. Elas preferiram incorporar-se à luta do seu povo, criando ao mesmo tempo espaçosespecíficos de reflexão sobre as suas experiências de exclusão como mulheres e como indígenas.

ANTECEDENTES DAS LUTAS ATUAIS
É possível entender a força atual dos movimentos de mulheres indígenas somente se considerarmos as suas experiências nas lutas indígenas e de camponeses nas últimas duas décadas. Neste sentido, podemos dizer que o movimento zapatista teve um importante papel na criação de espaços de reflexão e organização para as mulheres indígenas porque deixou ao descoberto as suas demandas. A partir dos anos setenta, vimos surgir no México um movimento indígena importante que questiona o discurso oficial sobre a existência de uma Nação homogênea e mestiça. Juntamente com as demandas de terra, aparecem demandas culturais e políticas que perfilam o que posteriormente será a luta pela autonomia dos povos indígenas.
Nessa mesma época há mudanças importantes na economia doméstica e surgem novos espaços de reflexão coletiva onde as mulheres indígenas têm possibilidade de participar. Em Chiapas, o assim chamado Congresso Indígena de 1974 é considerado como uma divisória de águas na história dos povos indígenas. A partir de este encontro onde participaram indígenas tzotziles, tzeltales, choles e tojolabales, as demandas culturais são acrescentadas às demandas campesinas de uma distribuição agrária mais justa. Embora aparticipação de mulheres não seja mencionada nos trabalhos sobre o movimento indígena dessa época, sabemos, por testemunhas de participantes, que as mulheres foram as encarregadas da “logística” de muitas das marchas, plantões e encontros que documentam esses trabalhos. Este papel de “acompanhantes” as seguia excluindo da tomada de decisões e da participação ativa em suas organizações. No entanto, essa mesma função deacompanhantes lhes permitia reunir-se e partilhar experiências com mulheres indígenas de diferentes regiões do estado.
Juntamente com a participação ativa das mulheres nas mobilizações campesinas, começavam a se ver algumas mudanças na economia domestica que fizeram com que um maior número de mulheres fosse incorporado ao comércio informal de produtos agrícolas ou de artesanato em mercados locais. Não é possível entender os movimentos políticos mais amplos se não considerarmos as dinâmicas locais que as famílias indígenas estavampassando. O “boom petroleiro” da década de setenta, unido à escassez das terras cultiváveis, fez com que muitos homens indígenas de Chiapas migrassem às regiões petrolíferas deixando às mulheres à frente da economia familiar. Estes processos de monetização da economia indígena foram analisados como fatores que tiraram o poder das mulheres dentro da sua família, ao influir que o seu trabalho doméstico fosse cada vez menos indispensável para a reprodução da força de trabalho. Contudo, para muitasmulheres significou um processo contraditório, pois ao mesmo tempo a sua posição no interior da célula familiar foi reestruturada, pois com o comércio informal entraram em contato com outras mulheres indígenas e mestiças e iniciaram processos organizativos através de cooperativas, que com o tempo foram convertendo-se em espaços de reflexão coletiva.
A migração, a experiência organizativa, os grupos religiosos, as Organizações não Governamentais e inclusive os programas de desenvolvimento oficiais, influíram na forma em que os homens e as mulheres indígenas reestruturaram as suas relações no interior da célula doméstica e repensaram as suas estratégias de luta. A Igreja Católica, através da Diocese de São Cristovão, desempenhou um papel muito importante na promoção de espaços de reflexão. Embora a Teologia da Libertação, que guia o trabalho pastoral destaDiocese, não promovesse uma reflexão de gênero, ao analisar as desigualdades sociais e o racismo da sociedade mestiça em seus cursos e oficinas, as mulheres indígenas começaram a questionar também as desigualdades de gênero vividas no interior das suas próprias comunidades.
No final da década dos oitenta, um grupo de religiosas começou a apoiar esta linha de reflexão e viu a necessidade de abrir a Área  de Mulheres dentro da Diocese de São Cristovão. Em outros escritos, analisei com detalhe este encontro entre religiosas e indígenas, que originou a Coordenadora Diocesana de Mulheres (CODIMUJ), um dos principais espaços organizativos das mulheres indígenas chiapanecas. Estas mulheres, com a sua experiência organizativa e a sua reflexão de gênero, desempenharam um papel importante no movimento mais amplo de mulheres. Mas, foi a partir da aparição pública do

Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN), em 1994, que as mulheres indígenas começaram a levantar as vozes nos espaços públicos não  para apoiar as demandas dos seus companheiros, somente, ou para representar os interesses de suas comunidades, mas para exigir o respeito aos seus direitos específicos como mulheres .
DO “FEMINISMO” AOS FEMINISMOS:

Embora a construção de relações mais equitativas entre homens e mulheres tornou-se em um ponto medular na luta das mulheres indígenas organizadas, o conceito de feminismo não foi reivindicado dentro de seus discursos políticos. Este conceito continua sendo identificado como o feminismo liberal urbano, que para muitas delas tem conotações separatistas que as afastam de sua necessidade de uma luta conjunta com os seus companheiros indígenas. Aqueles que chegaram ao feminismo depois de uma experiência de militância em organizações de esquerda sabem que a força ideológica que tiveram osdiscursos que representam ao feminismo como uma “ideologia burguesa, separatista e individualista” que separa às mulheres das lutas por seus povos. As experiências do feminismo liberal anglo, que de fato, partiram de uma visão muito individualista dos “direitos dos cidadãos”, foram utilizadas para criar uma representação homogeneizadora do “feminismo”.

A luta dos múltiplos feminismos mexicanos que se foram gestando nas últimas décadas em parte consistiu em apropriar-se desse conceito e fazer com que adquira um novo sentido. A reivindicação de um “feminismo indígena” somente será possível na medida em que as mulheres indígenas lhe dêem um sentido próprio ao conceito de feminismo e o encontre útil para criar alianças com outras mulheres organizadas. Por agora, muitas das suas demandas, tanto as dirigidas ao Estado quanto as suas organizações e comunidades, visam a reivindicar “a dignidade da mulher” e a construção de uma vida mais justa para todos e todas. A Lei Revolucionária de Mulheres, promovida pelas militantes zapatistas, é um dos múltiplos documentos que expressam estas novas demandas de gênero.
Dita lei consta de dez pontos entre os que se encontram o direito das mulheres indígenas à participação política e aos postos de direção, o direito a uma vida livre de violência sexual e doméstica, o direito de decidir quantos filhos ter e cuidar, o direito a um salário justo, o direito a escolher com quem casar-se, a bons serviços e a educação, entre outros direitos. Embora nem todas as mulheres indígenas conheçam esta Lei em detalhe, o fato de saber que existe tornou-se um símbolo de possibilidades de uma vida melhor para as mulheres.Estas novas demandas de gênero foram expressas de diferentes formas em Foros, Congressos e Oficinas, organizadas a partir de 1994, e questionam tanto as perspectivas essencialistas do movimento indígena, que apresentava às culturas mesoamericanas como harmônicas e homogêneas, como os discursos generalizantes do feminismo que põem ênfase no direito à igualdade desconsiderando a forma com que a classe e a etnia marcam a identidade das mulheres indígenas.
Diante do movimento indígena, estas novas vozes questionaram as perspectivas idílicas das culturas de origem pré-hispânica, discutindo as desigualdades que caracterizam as relações entre os gêneros. Também pôs em discussão a dicotomia entre tradição e modernidade que o indigenismo oficial vem reproduzindo e que o movimento indígena independente concorda em parte. Segundo esta dicotomia há duas opções: permanecer mediante atradição ou mudar através da modernidade. As mulheres indígenas reivindicam o seu direito à diferença cultural, e também, demandam o direito de  mudar aquelas tradições que as oprimem ou excluem: “Também devemos pensar o novo a ser feito em nossos costumes, a lei somente deveria proteger e promover os usos e costumes que as mulheres, comunidades e organizações analisem se são bons. Os nossos costumes não devem prejudicar a ninguém”.
Paralelamente, as mulheres indígenas estão questionando as generalizações sobre “A Mulher” que foram feitas no discurso feminista urbano.  Ao querer imaginar um frente unificado de mulheres contra o “patriarcado”, muitosestudos feministas negaram as especificidades históricas das relações de gênero nas culturas não ocidentais. Neste sentido, é importante retomar a crítica que algumas feministas negras fizeram ao feminismo radical e liberal dos Estados Unidos por apresentar uma visão homogenizadora da mulher, semreconhecer que o gênero vai se construindo de diversas formas em diferentes contextos históricos.
A BRECHA CULTURAL ENTRE MESTIÇAS E INDÍGENAS:

Considero que às feministas urbanas nos tenha faltado sensibilidade cultural em muitas ocasiões das mulheres indígenas, assumindo que nos une a elas uma experiência comum frente ao patriarcado. Esta falta de reconhecimento das diferencias culturais vem dificultando a formação de um movimento amplo de mulheres indígenas e mestiças. Uma das tentativas frustradas de formação deste movimento foi a Convenção Estadual de Mulheres Chiapanecas formada em setembro de 1994.Antes da realização da Convenção Nacional Democrática, convocada pelo EZLN, mulheres de ONGs, de cooperativas produtivas e de organizações campesinas, reuniram-se para elaborar conjuntamente um documento que foi apresentado na reunião de Aguascalientes, onde estão expostas as demandas específicas das mulheres chiapanecas. Este foi o gérmen da Convenção Estadual de Mulheres Chiapanecas, um espaço heterogêneo no aspecto cultural, político e ideológico.
Mulheres mestiças urbanas de ONGs, feministas e não feministas e de Comunidades Eclesiais de Base, nos reunimos com mulheres monolíngües dos Altos, sobre tudo tzeltales e tzotziles; com tojolabales, choles e tzeltales, da selva, e com indígenas mames da Serra. Esta organização teve uma vida curta, somente conseguimos realizar três reuniões ordinárias e uma especial, antes da dissolução da Convenção.
Fica de pé a tarefa de realizar uma reconstrução histórica deste movimento, que estude criticamente as estratégias do feminismo urbano para criar pontes de comunicação com as mulheres mestiças. É notável que tenham sido as mulheres  mestiças,  mesmo sendo minoria, as que assumiram postos de liderança em uma hierarquia interna não reconhecida. Muitas das mulheres integrantes da Convenção foram convidadas pelo EZLN como assessoras ou como participantes  na mesa  sobre “Cultura e Direitos Indígenas”, que se realizou em 1995 em San Cristóbal de las Casas, onde se integrou uma mesa especial sobre a “Situação, direito e cultura da Mulher Indígena”. Nesta mesa, as assessoras mestiças encarregadas dos relatórios deixaram de colocar as detalhadas descrições das mulheres indígenas sobre os problemas corriqueiros, incluindo somente as demandas gerais de desmilitarização e as críticas ao neoliberalismo. É a partir destas experiências corriqueiras, que foram apagadas dos relatórios e memórias de encontros, que as mulheres 

indígenas construíram as suas identidades de gênero de uma forma diferente à das feministas urbanas.
Só aproximando-nos de estas experiências poderemos entender a especificidade de suas demandas e de suas lutas. Depois destas experiências, não surpreende que, em outubro de 1997,  quando se realizou o Primeiro Congresso Nacional de Mulheres Indígenas, as participantes decidiram que as mestiças somente poderiam participar como observadoras. Esta decisão foi chamada de “separatista” e incluso de “racista” por parte de algumasfeministas, que por primeira vez foram silenciadas pelas mulheres indígenas. Argumentos similares aos que são usados contra as mulheres quando demandamos um espaço próprio ao interior das organizações políticas. É importante reconhecer que as desigualdades étnicas e de classe influenciam, mesmo sem más intenções, quando as mulheres mestiças, com um domínio maior do idioma oficial e da leitura e da escrita, tentam a hegemonizar adiscussão quando nos referimos a espaços conjuntos. Por isso, é fundamental respeitar a criação de espaços próprios e esperar o momento propício para a formação de alianças. As mulheres purépechas, totonacas, tzotziles, tzeltales, tojolabales, mazatecas, cucatecas, otomíes, triquis, nahuas, zapotecas, zoques, choles, tlapanecas, mames, chatinas, popolucas, amuzgas e mazahuas, reunidas em Oaxaca neste primeiro encontro nacional de mulheresindígenas, vivem os seus próprios processos, que nem sempre coincidem com os tempos e agendas do feminismo urbano.
Um exemplo desta brecha cultural existente entre mestiças urbanas e indígenas foram as fortes críticas que algumas feministas fizeram à Segunda Lei Revolucionária de Mulheres, propostas pelas indígenas zapatistas, por ter incluído um artigo que proíbe a infidelidade. Esta modificação da Primeira  Lei Revolucionária de Mulheres foi considerada uma medida conservadora produto da influência da Igreja nas comunidades indígenas. Estas precipitadas críticas devem contextualizar esta demanda das mulheres indígenas dentro de uma realidade na qual a infidelidade masculina e a bigamia são justificadas culturalmente em nome da “tradição”, e se encontram estreitamente vinculadas com as práticas de violência doméstica. Uma proibição que para as mulheres urbanas pode resultar moralista e retrograda, talvez para algumas mulheres indígenas seja uma forma de rejeitar uma “tradição” que as deixa vulneráveis no interior da unidade doméstica e da comunidade.
Acontece o mesmo no referente à legislação em torno à violência doméstica. As feministas urbanas de Chiapas lutaram durante vários anos para conseguir que a penalização para os esposos violentos fosse maior, conseguindo finalmente que em 1988 o artigo 122 do Código Penal fosse modificado, aumentando a penalização em casos de violência doméstica. Agora as mulheres indígenas que carecem de independência econômica são diretamente afetadas pelo castigo que a lei impõe aos seus maridos, ao ficarem sem o apoio econômico durante o tempo que ele esteja na cadeia. Algo semelhante acontece com o referente ao direito ao patrimônio e à pensão alimentícia para as mulheres indígenas. A luta legislativa serve de pouco ou quase nada quando os esposos não possuem terra e trabalho fixo.
Vale a pena retomar a proposta de Chandra Monhanty nesta luta em contra a violência doméstica em contextos multiculturais. Ela diz que “A violência masculina deve ser teorizada e interpretada dentro de sociedades específicas, para assim podermos entendê-la melhor e assim nos organizarmos de forma mais efetiva na luta contra ela” (Monhanty 1991:67).
Se o  reconhecimento das semelhanças entre as mulheres nos permite criar alianças políticas, o reconhecimento das diferenças é requisito indispensável para a construção de um dialogo respeitoso e para buscar estratégias de luta que estejam em sintonia com as diferentes realidades culturais. Talvez a construção deste diálogo intercultural, respeitoso e tolerante, contribua à formação de um novo feminismo indígena baseado no respeito às diferenças e deixando as desigualdades.Artículo tomado de CEMHAL Centro de Estudos da Mulher na História de América Latina.

O FEMINISMO NEGRO COMO PERSPECTIVA
Por Jaqueline Lima Santos
O movimento de mulheres negras no Brasil tem início no período colonial, quando as mesmas criavam estratégias de sobrevivência ao regime escravocrata e lideravam diversos movimentos de libertação do povo negro, como as rebeliões nas senzalas, os cuidados espirituais, as fugas, a formação dos quilombos, a compra de alforrias, o trabalho na cidade e a estruturação de suas famílias.

Na segunda metade do século XX, com a intensificação dos movimentos feministas pela ampliação e reconhecimento dos direitos das mulheres, as mulheres negras encontravam dificuldades de incluir sua pauta política nestes espaços que, liderado pelas brancas que tinham como referência o feminismo europeu e realizavam práticas racistas, se negavam a reconhecer as diferenças intra-gênero e tratavam a categoria mulher como homogênea e universal. Esta prática de anular a existência da mulher negra como grupo social com identidade e necessidades peculiares se estende até os dias de hoje, porém com menor impacto, pois desde o final dos anos 90 as organizações feministas tem avançado nessas discussões e assumido as reivindicações desses segmentos.

Na década de 70 surgem novos movimentos sociais negros, como o Movimento Negro Unificado (MNU), dentro dos quais as mulheres negras também tinham dificuldades em discutir as relações de gênero e realizavam enfrentamento constante contra as ações machistas. Porém, foi no seio do movimento negro que os movimentos de mulheres negras do século XX tiveram possibilidade de se articular e incluir sua pauta política. Lélia Gonzales em seu texto “ Por um Feminismo Afro-Latino-Americano” afirma que a conscientização das mulheres negras em relação as opressões sociais ocorre antes de qualquer coisa pela via racial, e que as raízes e experiência histórico e cultural comum entre nós e os homens negros acabam por fortalecer nosso laços políticos, “(...) foi dentro da comunidade escravizada que se desenvolveram formas político-culturais de resistência que hoje nos permitem continuar uma luta plurissecular de libertação”.

Nesse contexto, começam a aparecer algumas organizações negras femininas com o objetivo de dar voz e articular politicamente as mulheres negras. As organizações de mulheres negras surgem em todo o mundo, e são responsáveis por criar aquilo que chamamos de feminismo negro.

O feminismo negro traz para o centro do debate a articulação das categorias raça, gênero e classe que atuam como operadores ideológicos na configuração da realidade da mulher negra. Além disso ele cria um elo de solidariedade internacional entre as mulheres negras, que embora estejam inseridas em diferentes lugares e contextos sociais no mundo, são atingidas por formas de opressões comuns: raça, gênero e classe, e se encontram na base da pirâmide social.

As mulheres negras, através da perspectiva do feminismo negro, conquistaram alguns espaços e direitos. Mesmo com os avanços, o cenário atual ainda não nos é favorável e encontramos muitos desafios para superar o racismo, machismo, sexismo e desigualdades sociais. Além disso, estamos encontrando problemas de organização dentro do próprio movimento negro.

O debate em torno do feminismo negro nos permitiu fazer uma discussão qualificada no que se refere a realidade da população negra, a estratificação social e as relações de gênero. Para fazer essas discussões passamos por um processo de formação com o objetivo de entender a economia, organização do Estado, relações de poder, ideologia, opressões simbólicas, entre outros temas fundamentais. A mulher negra teve e tem um papel fundamental nas intervenções políticas e produção de conteúdo no campo das relações raciais e de gênero, mas a realidade social a qual esta submetida acaba por tira-la de diversos campos de atuação.

A responsabilidade com a chefia do lar, com os filhos e filhas, e com o trabalho faz com que muitas dessas mulheres se ausentem da atuação nos movimentos sociais, o que gera um movimento de indas e vindas, de saída e de retorno. Esse movimento dificilmente acontece com os homens, o que nos mostra como raça e gênero como categorias articuladas criam um campo de exclusão até mesmo dentro dos próprias organizações.

Essa realidade enfrentada pelas mulheres negras atingiu a maior parte das organizações existentes, e acredito que, mesmo que muitas dessas organizações tenham avançado nos utimos anos, a nossa retirada dos momentos da articulação política dificultou nosso constante processo de formação e logo a compreensão dos homens sobre as relações de gênero.

Nosso afastamento desqualificou a discussão articulada entre raça, gênero e classe dentro de organizações tradicionais do movimento negro. O movimento de retorno de nós mulheres negras que acontece constantemente é atingido pelo mal do machismo e sexismo que muitas vezes nos faz cair em um erro estratégico. E qual seria este erro? Quando nos deparamos com as ações machistas de nossos companheiros acabamos por dispor todas as nossas energias para discutir as relações de gênero por si só, sem articulá-la transversalmente com todas as questões que nos atingem cotidianamente, o que as vezes torna nossas discussões limitadas e sem grande impacto político.

Um exemplo disso é quando passamos horas em discussões reivindicando espaços para nós mulheres, e essas discussões são tão desgastantes que acabamos não tendo tempo para nos preparar para ocupar esses espaços. E porque não nos preparamos? Porque dedicamos muito tempo para discutir as relações de gênero em si e pouco ou nenhum tempo para discutir gênero transversalmente.

E o que seria discutir gênero transversalmente? Se gênero e raça são categorias estruturantes e nos condicionam a tal realidade de exclusão, vamos manipular essas categorias em nosso favor nas discussões sobre economia, reparações, políticas públicas, Estado, poder, ideologia, representação simbólica e etc, e começar a desmantelar essas estruturas. Assim, construímos uma discussão qualificada como nos ensinou o feminismo negro e retomamos os espaços de liderança como já fazemos desde o Brasil colonial.

Se assim fizermos, não precisaremos reivindicar nosso espaço pelo grito, mas pelo impacto político de nossas discussões, para os quais estamos bem preparadas. Somente nós poderemos fazer nossos companheiros enxergar as dimensões das relações de gênero dentro do movimento negro, mas para isso precisamos discutir essas categoria como estruturante assim como fazemos com o racismo.

A formação nesse momento seria a nossa principal ferramenta.

30 comentários:

Rox disse...

Participei de uma manifestação no último domingo, no Rio e filmei uma índia que vive na aldeia maracanã (ameaçada de sair de lá já que o Sr. governador que derrubar o prédio para construir "melhorias" para a copa de 2014) fazendo um discurso emocionado e esclarecedor. De início ela fala em tupi-guarani mas depois continua em português. Me levou e levou mais alguns lá às lágrimas. www.youtube.com/watch?v=h8HBMhNNHaw

e um video da manifestação www.youtube.com/watch?v=pu7VNsbdhPY

Se puder divulgar...

Unknown disse...

Talvez as mulheres, assim como eu, não soubessem do ocorrido...agora vou botar a boca no trombone...

Allice disse...

Não sabia do ocorrido, realmente TRISTE. Agora que estou sabendo, como disse um dos comentaristas acima: boca no trombone e vamos à luta, divulgação, reclamação, proteção delas e de nós mesmas.

Anônimo disse...

Boco no trombone heim malandrinha

Anônimo disse...

Olà! Gostaria de saber qual é a fonte dessa informação, não conseguir achar em lugar nenhum. Eu ficarei muito feliz em divulgar este absurdo e botar a boca no trombone, so gostaria de obter mais informações à respeito antes de fazê-lo.
Espero um retorno em breve,
Danusa

Hailey disse...

Muito bom, nem tenho o que dizer senão concordar plenamente e rever meus privilégios. Todxs devemos adquirir mais empatia para com as mulheres que estão em situação de mais risco do que nós.
Só gostaria que não esquecessem das nossas irmãs trans* - travestis, transexuais e transgêneros, mulheres que também sofrem nas ruas a violência machista e transfóbica que deseja realizar a assepsia social.

Geni Joga Pedra disse...

A matéria foi publicada pela primeira vez em 26 de outubro, nos sites abaixo:

Site SUL 21 publicou a notícia no dia 26/10: http://sul21.com.br/jornal/2012/10/india-guarani-kaiowa-de-pyelito-kue-e-violentada-por-oito-homens/

O site do Conselho Indigenistas Missionário (CIMI) no dia 26/10: http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6583&action=read

O IndNow no dia 26/10: http://www.dignow.org/post/%C3%ADndia-guarani-kaiow%C3%A1-%C3%A9-estuprada-por-oito-homens-4690128-61348.html

O Brasil de Fato no dia 26/10: http://www.brasildefato.com.br/node/11016

Geni Joga Pedra disse...

Não publicamos comentários agressivos e intolerantes, sobretudo de anônimos.

não se nasce mulher, torna-se disse...

Gostei do texto, critica realista ao movimento feministas.

Santiago disse...

Acho que o maior problema também ainda está nas pessoas, com suas essências ruins, vinda de uma hereditariedade relacionada ao velho e medíocre machismo cristão e típico da nossa sociedade capitalista,ocidental. A burrice impera por todos os cantos do país quando se deixa passar em branco casos como esse. É revoltante e degradante a situção que está a nossa sociedade, em grau INvolutivo. A beleza da feminilidade é esmagada ainda pela ignorante sociedade machista e preconceituosa, infelizmente.

Patty Kirsche disse...

Esse crime foi absurdamente horrendo. Eu soube dele, cheguei até a compartilhar em alguns lugares. Infelizmente, parece que não há a comoção necessária ainda. Mas vamos fazer nossa parte e mudar isso! É preciso que haja uma pressão intensa da opinião pública.

Poeta Hei de Ser disse...

Para não ser prolixo deixarei os parabéns e meus aplausos à autora e aos participantes!
Muito sucesso nessa luta e sintam-se todos abraçados.
André Anlub

Anônimo disse...

Parei de ler em "escadões da morte". Acabou com a credibilidade da autora do texto.

Vinha até gostando do texto, mas esse erro "quebra a paçoca". Por favor, minha linda, não repita mais esse disparate.

Geni Joga Pedra disse...

Ao comentarista que disse que parou de ler no primeiro erro de português. Uma música em tua homenagem, porque "Acredito que errado é aquele que escreve correto e não vive o que diz"...

Zaluzejo
O Teatro Mágico

Ah eu tenho fé em Deus... né?
Tudo que eu peço ele me ouci... né?
Ai quando eu to com algum pobrema eu digo:
Meu Deus! me ajuda que eu to com esse problema!
Ai eu peço muito a Deus... ai eu fecho meus olhos... né?
eu Deus me ouci na hora que eu peço pra ele, né?
Eu desejo ir embora um dia pra Recife
não vou porque tenho medo de avião, de torro...de torroristo
ai eu tenho medo né?
Corra tudo bem... se Deus quiser... se deus quiser..."

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"eu sou uma pessoa muito divertida"

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"não sei falar direito"

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"não sei falar"

Tomar banho depois que passar roupa mata
Olhar no espelho depois que almoça entorta a boca
E o rádio diz que vai cair avião do céu
Senhora descasada namorando firme pra poder casar de véu

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"não sei falar"

Quando for fazer compras no Gadefour:
Omovedor ajactu, sucritcho, leite dilatado, leite intregal,
Pra chegar na bioténica, rua de parelepídico
Pra ligar da doroviária, telefone cedular

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"não sei falar"

Quando fizer calor e quiser ir pra praia de Cararatatuba,
cuidado com o carejangrejo
Tem que ta esbeldi, não pode comer pitz, pra tirar mal hálito
toma água do chuveiro
No salão de noite, tem coisa que não sei
Mulé com mulé é lésba e homi com homi é gay
Mas dizem que quem beija os dois é bixcional...
só não pode falar nada,
quando é baile de carnaval

Pra não ficar prenha e ficar passando mal, copo d'água
e pílula de ontemproccional
Homem gosta de mulher que tem fogo o dia inteiro,
cheiro no cangote, creme rinsa no cabelo
Pra segurar namorado morrendo de amor
escreve o nome num pepino e guarda no refrigelador,
na novela das otcho, Torre de papel,
Menina que não é virge, eu vejo casar de véu

Se você se assustar e tiver chilique,cuidado pra não morrer
de palaladi cadique
Tenho medo da geladeira, onde a gente guarda yogute,
porque no frio da tomada se cair água pode dá cicrutche
To comprando um apartamento e o negócio ta quase no fim
O que na verdade preocupa é o preço do condostim
O sinico lá do prédio, certa vez outro dia me disse:
Que o mundo vai se acaba no ano 2000 é o que diz o acalipse

Tenho medo de tudo que vejo e aparece na televisão
Os preju do Carajundu fugiram em buraco cavado no chão
Torrorista, assassino e bandido, gente que já trouxe muita dor
O que na verdade preocupa é a fuga do seucrostador
Seucrosta quem não tem dinheiro, quem não tem emprego
e não tem condução
Documento eu levo na proxeca porque é perigoso carregar na mão

Mas quando alguém te disser ta errado ou errada
Que não vai S na cebola e não vai S em feliz
Que o X pode ter som de Z e o CH pode ter som de X
Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz

"E eu sou uma pessoa muito divertida...
eles não inventavam nada... eu gostava de inventar as coisa
não sei falar direito...
inventar uma piada, inventar uma palavra, inventa uma brincadeira...
não sei falar
me da um golinho... me da um golinho..."

E com muito prazer que eu convido agora todos aqueles
que estão ouvindo esta canção
Para entoar em uníssono o cântico: Omovedor, Carejangrejo
Vamos aquecer a nossa voz cantando assim:
Iô,iô,iô. Iô,iô,iô,iô, eu digo:
Omovedor, Carejangrejo, Omovedor, carejangrejo... Omovedor!
"omovedor... carejangrejo... só isso que eu tenho pra falar falar!"

Anônimo disse...

Venho participando de algumas discussões feministas pela internet, e, depois de muito analisar certas posturas e prioridades (e cegueiras reiteradas), concluí que tal postura está intrinsecamente relacionada a ideologias classistas.
Certas ideias são defendidas em nome de todas as mulheres por mulheres que não têm a MENOR ideia do que é ser MULHER POBRE, morar em periferia, usar transporte público, viver em meio ao domínio de padrões midiáticos SEM modelos alternativos etc.
Não sei se fui clara, pois o comentário é bem genérico. Mas feminismo ideológico classista se dizendo universalista é bem difícil de engolir.
Não se trata de um ponto específico, mas uma ideologia advinda da vida de classe média/ média alta/ intelectual, que permeia todo o discurso.

Anônimo disse...

Seu texto é muito bacana e realmente trata de algo que interessa a todxs no que se refere ao feminismo se centrar somente na classe média branca, mas não pude deixar de reparar que o nome da vítima foi mencionado.

Não se deve, nunca, de nenhuma maneira, revelar o nome de uma vítima de violência sexual, achei que pelo menos xs feministxs estariam cientes desse fato e ando me chocando muito com o numero de pessoas que vem divulgando esse dado.

Geni Joga Pedra disse...


Sim não se divulga nome de vítima de estupro, por isso usei nome fictício, até porque não sei o verdadeiro nome, pois não foi divulgado, apenas as iniciais. Pensei em usar Maria, mas por se tratar de um nome comum poderia coincidir com nome de alguma mulher guarani-kaiowá.

Anônimo disse...

É que divulgaram o nome dela em outra página e é muito parecido com esse. Divulgaram nome e sobrenome inclusive.

Anônimo disse...

Não entendi. O Nome dela é Marlene ou não? Achei bola fora divulgarem o nome dela (Direta e indiretamente). De qualquer maneira foi bom para gente refletir sobre Mulheres Indígenas. Gostei deste texto sobre a experiência do EZLN. Elas colocam o feminismo em outro patamar.

Geni Joga Pedra disse...

Então, sobre essa questão do nome da índia vítima do estupro. Algumas pessoas mandaram comentários citando o nome e sobrenome dela, outras enviaram comentários com os links, onde o nome dela foi publicado. Não vou publicá-los, seguindo esse princípio de não revelar a identidade da vítima estupro ou fornecer informações que levem a isso. De fato, o pseudônimo que eu usei é muito parecido com nome dela. Algumas pessoas estão me acusando de ter agido de má fé. Eu não tenho como provar que eu não sabia o verdadeiro nome dela, que não tive intenção de expor a pessoa, e sim o caso, que escolhi o nome Marlene por acaso sem ter noção da semelhança. Acrescentei aquela nota após o comentário que chamava atenção para o fato do nome da vítima estar sendo divulgado e receber um ou dois post de protesto que usaram o nome Marlene (fictício) como se fosse o verdadeiro nome da vítima. Ou seja, não tenho como provar que não estou mentido quando digo que ao publicar esta postagem não sabia da semelhança dos nomes, que soube depois através de vocês. Por outro lado, fico chateada em saber que as pessoas estão mais preocupadas em me acusar disso ou daquilo (incluindo muitos palavrões) do que discutir a gravidade do caso ou a inclusão das lutas e questões específicas das mulheres negras e índias na pauta dos debates do feminismo. Com certeza, as pessoas que estão me mandando mensagens agressivas (as quais não serão publicadas) não são do movimento feminista, mas é sempre desagradável perceber que tem gente que gosta de qualificar os próprios pontos de vista desqualificando xs outrx... Saudações feministas a todxs!

Anônimo disse...

Ok, você disse que não foi por má fé, mas o nome "fictício" continua aí na tua postagem. Não seria melhor apagar e colocar somente as iniciais?

Pra que ficar insistindo em uma coisa que já se provou ser prejudicial à vítiam? E nem vou entrar em detalhes sobre o que a grande mídia tem feito porque o negócio tá absurdo e tem como associar SIM o nome que você usou com o nome real dela.

E dizer que quem está reclamando não é do movimento feminista é muita sacanagem, acredito que muitxs - assim como eu - estão mais preocupadxs neste momento em amenizar o dano cometido contra esta moça do que ficar de picuinha.

O problema não é o teu texto, mas o fato de que você expôs, direta ou indiretamente, uma vítima de estupro. E isso é, no mínimo, antiético.

Geni Joga Pedra disse...

Gente eu estou completamente sem chão com essa acusação de que tentei expor alguém vítima de uma brutalidade como essa! Gente, minha intenção nunca foi expor ninguém! EU NÃO SABIA QUE O NOME DA MULHER VÍTIMA DESSE CRIME ABSURDO ERA PARECIDO COM O PSEUDÕNIMO QUE EU USEI. Por que eu não usei as iniciais? Porque não eu gosto quando as pessoas são transformadas em números e siglas, quando eu fico sabendo de casos como este fico imaginando o rosto, o nome, a história de vida da pessoa envolvida. Não gosto quando casos de violência são tratados como dados e números. Quando as vítimas da violência são convertidas em estatísticas, em uma sigla num jornal. Esse foi o motivo de eu ter inventado um pseudônimo.

Anônimo disse...

"E nem vou entrar em detalhes sobre o que a grande mídia tem feito" Nooosa! A galera viaja! Onde na grande mídia noticiaram isso? A mídia não tá nem aí pros Guarani-Kaiowá.

Anônimo disse...

Temos que nos mobilizar para oferecer apoio ao povo caiová. O estupro dessa moça foi um prelúdio de como o homem branco pretende resolver a questão territorial com os índios. Ainda tem esse caso da menina que foi vendida para o vereador em troca de um celular. Cadê os Direitos Humanos? Você tinha que escrever outro texto "O silêncio das Organizações de Direitos Humanos sobe os índios do Brasil". Sugestão.

Anônimo disse...

A grande mídia na internet tem botafo fotos da vitima para ilustrar a materia sobre o estupro, pessoa anônima que questionou acima. Foto e nome, não dizem que ela é a vitima, mas usam a foto e o nome para ilustrar as matérias.

Anônimo disse...

COMO ESPERAR ÉTICA DE ALGUÉM QUE DEFENDE O ABORTO? NÃO ESTOU SURPREENDE NADA A FALTA DE ÉTICA DA AUTORA.

Anônimo disse...

Eu nem perco tempo lendo blog destas amadoras. Querem saber? Querem ler coisas interessantes, leiam um blog de responsa como o
escrevalolaescreva.blogspot.com/

Anônimo disse...

Você devia excluir esta postagem sobre o estupro da índia, não contribuiu em nada com debate feminista e ainda causou a maior confusão. Admita que foi um tiro no pé.

Anônimo disse...

Muito chato esse lance do pessoal ficar questionando sua iniciativa de denunciar um caso de estupro. No caso do BBB todo mundo falava o nome da vítima o tempo todo, inclusive nos blogs feministas. No caso das gurias de Queimadas, que foram estupradas durante uma festa também e não rolou essa pressão. Acho que colocaste o dedo na ferida. Por isso, essa fúria toda. Eu não tenho vô índia, mas me comovi com a ideia de que o Brasil é uma nação construída na base do estupro e violação dos direitos das mulheres. Paz e força pra ti!

Anônimo disse...

Não acho que a postagem em questão deva ser excluída como foi sugerido, pois de um jeito, ainda que torto, está gerando algum debate. Isso é positivo. Só acho que a autora não foi feliz em alguns aspectos. Nem vou entrar no mérito da escolha do pseudônimo que parecia com o nome da vítima. Acho que a autora tinha condição de aprofundar o debate do feminismo de uma perspectiva étnica e social sem explorar esse caso em específico, afinal, mulheres índias e negras sempre foram as mais afetadas pelas políticas colonizadoras. Podia ter discutido a violência contra elas de um perspectiva histórica e não de uma perspectiva circunstancial. Apesar disso, gostei bastante do estilo provocativo do Blog. Seu lema "Se a desigualdade faz o sistema funcionar...Aplique a resistência!" me ganhou. Também gostei bastante da postagem sobre propaganda machista. Simplicissimamente hilariante!Uma das melhores que já li sobre o tema.